domingo, 21 de outubro de 2012

Nihil


Existo porque  sofro, sofro rindo, rindo de minha própria insignificância. Não sou uma pessoa objetiva, longe disso,  me entrego ao pecado da reflexão e deixo os meus dias chegarem ao fim. Os homens normais (assim denomino as pessoas que conseguem viver  em sociedade, pois encontram sua função na mesma ) seguem a sua rotina sem ao menos questionar o significado da mesma e qual seria a sua necessidade. Invejo-os profundamente , quisera eu poder crer nos valores e na “beleza” da sociedade, mas quanto mais  eu percebo as suas  “virtudes” , mais eu mergulho na decadência do meu próprio pensamento, até que eu consiga me afogar no mesmo e me livrar finalmente da náusea que ela me causa, seus valores são tão utópicos que o verdadeiro absurdo é acreditar na possibilidade de reger a sua vida baseado nos mesmos. Ainda assim, sou humano demais para largar tudo.

Sugiro não pensar, anseio não pensar, pois no momento em que acabarem todos os meus questionamentos, finalmente poderei encontrar uma função na sociedade e tirar o fardo da dúvida de minha mente, e, estando cego, ver a realidade que tolamente eu busquei ao abrir meus olhos; logo depois acordarei desse sonho para um novo amanhecer ofuscante. Mas o que torna o cotidiano suportável são as pessoas com as quais dividimos nossa cela. Descobri que posso sorrir mesmo depois da infância e perceber esperança de  uma melhor existência no olhar de um pequeno , fase a qual todos nós passamos antes de resultarmos nos monstros que somos atualmente  . O amor é o seu  consolo, os vícios, o seu escape e o prazer , aquilo que mais se aproxima da felicidade.


A vida é o sorriso de um detento ao conseguir um maço na prisão à dois meses de ser executado. Ele fuma o cigarro na crença de que tudo ficará melhor, essa ilusão o acalma e ele  esquece momentaneamente do sorriso dos guardas quando carregarem seu corpo inanimado para o carro do necrotério. Avisam-lhe que a execução será à céu aberto, ele se anima pela possibilidade de rever a luz do sol em sua totalidade após inúmeras décadas enclausurado. A chuva era incessante, dava seus passos cabisbaixo e lamentando que até o sol lhe havia virado as costas, a muito custo consegue convencer os carcereiros a lhe darem um último cigarro. Os guardas preparavam seus rifles misericordiosos, ele deu sua última tragada demoradamente aproveitando o máximo do alcatrão que mergulhava em sua garganta. Sua sorte foi de o primeiro disparo ter atravessado seu crânio poupando-o da agonia causada pelos outros cinco tiros que o acertaram. Uma morte instantânea para uma existência imposta; ele estava preso desde os 30 anos , mas condenado desde o seu nascimento . Enfim isso é irrelevante, tudo é. As gotas de chuva caem incessantemente  e a chuva continua a cair maquinalmente.

2 comentários:

Jennifer Anconi disse...

Sensacional!

Unknown disse...

Obrigado, fico feliz que tenha gostado.