Existo
porque sofro, sofro rindo, rindo de
minha própria insignificância. Não sou uma pessoa objetiva, longe disso, me entrego ao pecado da reflexão e deixo os
meus dias chegarem ao fim. Os homens normais (assim denomino as pessoas que
conseguem viver em sociedade, pois
encontram sua função na mesma ) seguem a sua rotina sem ao menos questionar o
significado da mesma e qual seria a sua necessidade. Invejo-os profundamente ,
quisera eu poder crer nos valores e na “beleza” da sociedade, mas quanto
mais eu percebo as suas “virtudes” , mais eu mergulho na decadência do
meu próprio pensamento, até que eu consiga me afogar no mesmo e me livrar
finalmente da náusea que ela me causa, seus valores são tão utópicos que o
verdadeiro absurdo é acreditar na possibilidade de reger a sua vida baseado nos
mesmos. Ainda assim, sou humano demais para largar tudo.
Sugiro
não pensar, anseio não pensar, pois no momento em que acabarem todos os meus
questionamentos, finalmente poderei encontrar uma função na sociedade e tirar o
fardo da dúvida de minha mente, e, estando cego, ver a realidade que tolamente
eu busquei ao abrir meus olhos; logo depois acordarei desse sonho para um novo
amanhecer ofuscante. Mas o que torna o cotidiano suportável são as pessoas com
as quais dividimos nossa cela. Descobri que posso sorrir mesmo depois da
infância e perceber esperança de uma
melhor existência no olhar de um pequeno , fase a qual todos nós passamos antes
de resultarmos nos monstros que somos atualmente . O amor é o seu consolo, os vícios, o seu escape e o prazer ,
aquilo que mais se aproxima da felicidade.
A
vida é o sorriso de um detento ao conseguir um maço na prisão à dois meses de
ser executado. Ele fuma o cigarro na crença de que tudo ficará melhor, essa
ilusão o acalma e ele esquece
momentaneamente do sorriso dos guardas quando carregarem seu corpo inanimado
para o carro do necrotério. Avisam-lhe que a execução será à céu aberto, ele se
anima pela possibilidade de rever a luz do sol em sua totalidade após inúmeras décadas
enclausurado. A chuva era incessante, dava seus passos cabisbaixo e lamentando
que até o sol lhe havia virado as costas, a muito custo consegue convencer os carcereiros
a lhe darem um último cigarro. Os guardas preparavam seus rifles misericordiosos,
ele deu sua última tragada demoradamente aproveitando o máximo do alcatrão que
mergulhava em sua garganta. Sua sorte foi de o primeiro disparo ter atravessado
seu crânio poupando-o da agonia causada pelos outros cinco tiros que o
acertaram. Uma morte instantânea para uma existência imposta; ele estava preso
desde os 30 anos , mas condenado desde o seu nascimento . Enfim isso é
irrelevante, tudo é. As gotas de chuva caem incessantemente e a chuva continua a cair maquinalmente.
2 comentários:
Sensacional!
Obrigado, fico feliz que tenha gostado.
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