quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Escolhas


Cinco horas da manhã, hora ingrata. Com o rufar surdo de dois despertadores, mais uma vez Zé Maria é lançado dos seus sonhos de momentos melhores em Ipanema para o subúrbio carioca.

Maquinalmente, ele beija a nuca de sua esposa nua, suada e terceira, e parte para o banho, numa vã tentativa de conter o já infernal calor de Inhaúma.  No banheiro, depara-se com a óbvia percepção de que seus anos dourados desapareceram há tempos e que o espelho e a balança agora fazem parte da sua lista de desafetos. Aos poucos, uma tristeza cresce nas profundezas de Zé Maria, mas logo é abafada por um turbilhão de pensamentos e preocupações do dia a dia. A manhã nem começara direito e já estava atrasado, o que fazia da tristeza um elemento, além de inconveniente, totalmente dispensável. Liga o chuveiro e, entre bocejos e grunhidos, entra na fria cascata.

Ao sair do banheiro, jura mais uma vez fidelidade à sua rotina.  Veste metodicamente sua roupa social, começando sempre pelas meias desbotadas e finalizando pela camisa surrada de traços lilases. Para o café da manhã, apenas uma torrada com manteiga, um café forte e a companhia dos filhos no canto inanimado da mesa são necessários. De volta ao quarto, finalmente coloca o paletó cor de asfalto e se estrangula com o nó preguiçoso de sua gravata azul Baía de Guanabara. Escova disciplinarmente os dentes, reverencia o pôster do título americano de 1982 e só então sai da sua humilde residência em direção ao metrô. Zé Maria é um servo fiel.

Assim como todos os dias, caminha bêbado até a estação do bairro. Bêbado de sono e atordoado pelo sol implacável em seu trono distante e indiferente. O passo, cambaleante e amargo, segue à risca a rota de um GPS mental por ruas, ruelas e cruzamentos igualmente conhecidos e explorados ao longo de anos até chegar ao portão enferrujado do cemitério local, há apenas alguns metros do destino. Subitamente, Zé Maria para e se vira para o interior da vizinhança mais silenciosa do Rio de Janeiro, como se fosse chamado para dentro por alguma voz familiar. O suor, outrora ligado ao pequeno exemplar de inferno na Zona Norte, agora arrepia seu último resquício de alma e o aterroriza. Um novo turbilhão de pensamentos surge e ganha terreno no território dominado pela rotina. Zé Maria tenta seguir seu velho caminho, mas é incapaz de se mover. É preciso entrar.

Há muitos anos não andava dentro do Cemitério de Inhaúma, e gostaria francamente de permanecer assim. Entretanto, tudo parece tão assustadoramente familiar na cabeça de Zé Maria que alguém de fora poderia achar que o pobre homem era um assíduo frequentador do local.  Seu caminhar passa a ser leve, e a naturalidade que chega a uma lápide é impressionante, apesar do tom consternado da razão. Não tem nada que chame a atenção nesse ponto, apenas um nome quase apagado, uma data e um epitáfio simples.

“José Maria Inocêncio Oliveira
(12/10/1964 - (24/01/1983)
Em homenagem ao jovem alegre que jaz aqui em razão de uma escolha”

Instantaneamente, o mundo desaba nos ombros de Zé Maria e todo seu pragmatismo escorre em forma de dolorosas lágrimas. Uma vida inteira de encruzilhadas resumida em um macabro monumento à sua infelicidade. Abatido, e com mais rugas que no começo da manhã, coloca um buquê roubado de margaridas no pé do túmulo e volta-se para a saída do cemitério.

De volta ao portão, repara em quatro adolescentes conversando em frente de uma das várias capelas do lugar. Ambos vivos e vibrantes, ao contrário do envelhecido Zé Maria, que atravessa a via para ir de encontro com eles. Fica frente a frente com os desconhecidos e, instantaneamente, sussurra alguns conselhos para o bando e volta a seguir para o metrô. Esboça um sorriso, mas não por muito tempo. Está atrasado e isso é o que importa novamente.

Aquele abraço!

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sábado, 19 de janeiro de 2013

Politicamente Otários


Odeio o politicamente correto. É uma corrente extremamente fascista que busca censurar a linguagem, mesmo que as atitudes se mantenham iguais.

Como disse Marcio Schaier, jornalista que aparece no documentário M de Verdade, produzido pelo Gracinha, comandado por Alexandre Sayad, “não há problema nenhum em que você tenha a rua do shopping cheia de putas, desde que você não use a palavra putas”. O politicamente correto é aquele cara que é o responsável pela criação da sociedade do processo, da falsa igualdade.

Atualmente, por causa do politicamente correto, um negro não pode mais ser um ladrão. Uma mulher não pode mais ser dona de casa. Um nordestino não pode mais ser burro. Um homossexual não pode mais ser uma má pessoa. O problema do politicamente correto é que, na sua carapaça, ele prega uma mudança nas atitudes, mas continua separando as pessoas por rótulos. Como sempre diz meu pai, merda é merda, estando em um papel bonito ou na privada. Traduzindo a metáfora, a condição das pessoas continua a mesma, independente das palavras que sejam usadas para descrever.

O grande problema é que as pessoas dão valor excessivo às palavras. Não que elas não carreguem conotações, sentidos ou então que não ajudem a reforçar ou atenuar preconceito, jamais diria isso. O problema é que deixar de chamar de preto e passar a chamar de afro descendente não muda a situação de preconceito em que a maioria da população negra se encontra atualmente

O politicamente correto ajuda também a aumentar a hipocrisia social. A mesma dona de casa de classe média que ignora mendigos e é completamente contra as cotas para negros me censuraria duas vezes nessa sentença, apenas. “Mendigo” e “negros” em uma mesma frase. Dona, chamar o mendigo de morador de rua não o coloca imediatamente em uma casa luxuosa.

Para finalizar, digo que o politicamente correto é o grande protetor de ego da classe média burra e alienada. Vamos usar palavras que nos deixem bem publicamente, mas vamos manter a conduta que nos mantém em cima e mantém a eles embaixo. E viva a sociedade moderna!

domingo, 21 de outubro de 2012

Nihil


Existo porque  sofro, sofro rindo, rindo de minha própria insignificância. Não sou uma pessoa objetiva, longe disso,  me entrego ao pecado da reflexão e deixo os meus dias chegarem ao fim. Os homens normais (assim denomino as pessoas que conseguem viver  em sociedade, pois encontram sua função na mesma ) seguem a sua rotina sem ao menos questionar o significado da mesma e qual seria a sua necessidade. Invejo-os profundamente , quisera eu poder crer nos valores e na “beleza” da sociedade, mas quanto mais  eu percebo as suas  “virtudes” , mais eu mergulho na decadência do meu próprio pensamento, até que eu consiga me afogar no mesmo e me livrar finalmente da náusea que ela me causa, seus valores são tão utópicos que o verdadeiro absurdo é acreditar na possibilidade de reger a sua vida baseado nos mesmos. Ainda assim, sou humano demais para largar tudo.

Sugiro não pensar, anseio não pensar, pois no momento em que acabarem todos os meus questionamentos, finalmente poderei encontrar uma função na sociedade e tirar o fardo da dúvida de minha mente, e, estando cego, ver a realidade que tolamente eu busquei ao abrir meus olhos; logo depois acordarei desse sonho para um novo amanhecer ofuscante. Mas o que torna o cotidiano suportável são as pessoas com as quais dividimos nossa cela. Descobri que posso sorrir mesmo depois da infância e perceber esperança de  uma melhor existência no olhar de um pequeno , fase a qual todos nós passamos antes de resultarmos nos monstros que somos atualmente  . O amor é o seu  consolo, os vícios, o seu escape e o prazer , aquilo que mais se aproxima da felicidade.


A vida é o sorriso de um detento ao conseguir um maço na prisão à dois meses de ser executado. Ele fuma o cigarro na crença de que tudo ficará melhor, essa ilusão o acalma e ele  esquece momentaneamente do sorriso dos guardas quando carregarem seu corpo inanimado para o carro do necrotério. Avisam-lhe que a execução será à céu aberto, ele se anima pela possibilidade de rever a luz do sol em sua totalidade após inúmeras décadas enclausurado. A chuva era incessante, dava seus passos cabisbaixo e lamentando que até o sol lhe havia virado as costas, a muito custo consegue convencer os carcereiros a lhe darem um último cigarro. Os guardas preparavam seus rifles misericordiosos, ele deu sua última tragada demoradamente aproveitando o máximo do alcatrão que mergulhava em sua garganta. Sua sorte foi de o primeiro disparo ter atravessado seu crânio poupando-o da agonia causada pelos outros cinco tiros que o acertaram. Uma morte instantânea para uma existência imposta; ele estava preso desde os 30 anos , mas condenado desde o seu nascimento . Enfim isso é irrelevante, tudo é. As gotas de chuva caem incessantemente  e a chuva continua a cair maquinalmente.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Noite


Final de tarde em São Paulo e o burburinho começa a reinar nos mais variados cantos da metrópole. Após um interminável e metódico dia, finalmente a noite chega para proclamar a ilusão de liberdade aos seres.

Entre as pessoas que mais aguardavam tal momento estava Maria Madalena. Filha de família de grande status social, aluna de uma das escolas mais tradicionais da cidade e baladeira quase profissional, a burguesinha considerava a madrugada como a única válvula de escape para mostrar nossa verdadeira humanidade. “Não existe pecado à noite, apenas instinto” sussurrou-me deliciosamente uma vez no meio da leitura do Novo Testamento na fria paróquia de aparência pseudoclássica anexa ao colégio. Gostava de enlouquecer os garotos à luz do dia para que, sob testemunha das estrelas, pudesse atacar suas vítimas sem o brutal julgamento da manhã.

A noite era seu verdadeiro habitat natural, sua própria razão de existir. Não precisava seguir convenções pré-estabelecidas pelas gerações conservadoras anteriores à sua existência. Não era necessário gastar sua preciosa e vital energia jovial com seu característico cinismo pelas questões do cotidiano, pelos estudos e pela realidade. Queria ter cada sensação possível que seu belo corpo - um metro e setenta centímetros, cabelo ardente, maçãs do rosto bem definidas e olhos verdes tão delicados, pudesse oferecer nas incessantes madrugadas paulistanas regadas a bebidas de nomes esdrúxulos –  “Não existe amor à noite, apenas open bar” era outro lema seu – e músicas monotemáticas. Evidentemente, eram de conteúdo vulgar para o deleite de Maria e suas Lolitas.

Para cada batida ensurdecedora nos titânicos alto-falantes, era um demônio libertado dos grilhões da sua sanidade mental. Para cada drink, adulterado ou não, um bem dado pisão de salto alto preto de quinze centímetros na decrépita jugular da sociedade. Assim, e só assim, sua verdadeira face despertava de seu exílio matutino e lançava seu olhar – e que olhar, meu caro leitor! ­– de fera chamando outros para adotarem a causa e rebelarem contra a artificialidade de suas vidas.  Uma autêntica revolução com hora marcada.

Infelizmente, perdi contato com Maria após a formatura do ensino médio. Alguns afirmam que a ainda estonteante ruiva, como fazem questão de ressaltar, se perdeu do caminho, enquanto outros declaram que ela realizou o sonho de abraçar a noite em definitivo. Só espero que ela esteja feliz, seja no mundo real ou no verdadeiro.

Aquele abraço

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Média da Classe


São 9 horas da noite. O “oi, oi, oi” fala na televisão, e a família, com dois filhos, se senta confortavelmente no sofá para assistir à novela. Sabem os nomes de todos os personagens, todas as tramas, todos os bons e todos os maus. O mundo da novela é maniqueísta, vale lembrar.

A uma hora de duração da novela faz a família se sentir bem. Eles fazem parte daquele mundo. Se envolvem, se sentem parte de alguma coisa. Mesmo que a novela já seja gravada e já tenha um final escrito, e que independe da participação ou envolvimento da família. Quando acaba o programa, sentam-se os quatro à mesa de jantar, que a empregada, cujo filho agora vai à faculdade (que absurdo!), preparou.

O pai e a mãe começam a falar de como a corrupção no país dá nos nervos dos dois. O pai não comenta, mas ao ir ao banco antes do serviço, estacionou o carro numa vaga para idosos, e deu o dinheiro da cerveja para que o manobrista “não visse”. Foi camarada, aquele manobrista. “Esses malditos políticos que comandam o país, não percebem que estamos todos ficando cada vez mais pobres por causa das roubalheiras deles?”. E criticam o SUS, a escola pública e o transporte público, mas têm plano de saúde, os filhos vão de perua a uma escola particular que custa os olhos da cara dos trabalhadores honestos.

Amanhã a gentil senhora irá dispensar a empregada, que vai à festa de formatura do seu sobrinho, que se formou em uma universidade federal, só porque é preto, olha o absurdo! Tudo bem, ela tirará o dia para ir à manicure, já que não trabalha fora, para comentar os absurdos de Tufão no último capítulo da novela.

As crianças vão para a cama. O mais velho não chegou a comentar, mas, durante a novela, estava ocorrendo um debate político entre os candidatos à prefeitura da cidade.

E o novo dia vai nascer. Os pais sabem da novela, mas não sabem em quem votaram para vereador nas últimas eleições. E assim a classe continua. Revoltada com o que não vê e com o que desconhece, sem saber de onde vem, e sem mover uma palha para mudar qualquer coisa. Mas, se tudo der certo, a Nina e o Jorginho vão acabar a novela juntos. Não é lindo ser da classe média?

Ulysses Faria
Twitter: @Ulysses_Faria

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Gorda ou Burra ?



"Não me incomodo com quem me chama de burra. Me incomoda é me chamarem de gorda!" 
Sabrina Sato.

                A mulher nem sempre teve espaço na sociedade, muito menos liberdade. Elas nasciam nas casas de seus pais e apenas se mudavam para a de um outro homem, supostamente aprovado pelo seu pai. Nunca era consultada. Política, trabalho, religião não eram coisas para mulheres, afinal os homens são muitos superiores. Ter um cromossomo y a mais sempre fez a diferença, desde os tempos em que nem se fazia ideia do que eram os cromossomos.
                As mulheres tiveram que lutar pelos seus direitos. Praticamente todas as religiões pregam a superioridade do homem sobre a mulher, e a submissão desta. No século XIX as mulheres frente aos ideais democraticos e  iluministas que pregavam a igualdade e a liberdade, vendo-se excluidas de todas as mudanças que ocorriam na modernidade deram inicio à primeira onda feminista. Dali em diante, o progresso em direção à igualdade cresceu cada vez mais. Mas há uma razão pela qual o movimento é ativo ate hoje. A total igualdade ainda não foi alcançada. As mulheres detêm apenas 1% da riqueza e ganham 10% das receitas mundiais, apesar de constituirem nada menos que 49% da população. Além disso, em média ganham 30% menos do que os homens, no mundo todo, mesmo quando têm o mesmo emprego. A descriminação ainda existe. O feminismo ainda é atual.
                No entanto, os progressos continuam: elegemos a primeira presidenta do Brasil. Uma mulher ocupar o cargo mais alto da republica é tão inédito que ate tivemos que acrescentar uma palavra ao nosso vocabulário. A participação ativa de mulheres em partidos políticos aumenta a cada ano e a cada eleição. As mulheres foram conseguindo aos poucos seus direitos de participação na sociedade: o direito ao voto, ao estudo, mas sobre tudo o foco sempre foi a igualdade.
                Não nos enganemos: o movimento feminista não prega a superioridade da mulher ou a opressão da mulher para com os homens. O movimento prega sim a igualdade e os direitos iguais. Igualdade é você ir ao cinema com o seu namorado e às vezes pagar as entradas, é ir almoçar e pagar a conta, deixar às vezes ele pagar, mas nunca aceitar a posição de que ele deve pagar porque ele tem um pênis e você, uma vagina. Igualdade é você beber uma cerveja e rachar a conta, porque você recebe o mesmo salário que um homem, é poder se candidatar a qualquer cargo público.
                Em contraste a isso, temos na televisão a supervalorização da mulher CORPO. Mulheres que se sujeitam a aparecer seminuas em rede nacional para atrair o público masculino para a frente da televisão. Não sou conservadora, acho que algumas mulheres têm o corpo admiravel e digno de elogios, além disso na sociedade capitalista cada um vende o que o outro está a fim de comprar. Mas, é revoltante uma pessoa inteligente se sujeitar a esse tipo de coisa.
                Sabrina Sato, desde que ficou famosa, sai em capas de revistas com os dizeres "Sou Inteligente" ou algo do tipo. Se esse fato é realmente verdade ela é a vergonha mundial de todas as mulheres. Uma mulher com um potencial culto e inteligente vender seu corpo e aparecer em rede nacional fazendo papel de idiota, apenas atuando para fomentar o estereotipo masculino é mediocre. Eu prefiro acreditar que é uma mulher destituída de faculdades intelectuais, a acreditar que ela se submete a esse tipo de coisa. Eu venderia meu rim antes de vender o meu carater.
                As mulheres devem lutar, e lutam, contra o estereotipo masculino. Mulher boa é mulher bonita, gostosa, burra, muda, passíva e fútil (aquela típica barbie que só abre a boca pra perguntar o que seu provedor quer jantar e para pedir dinheiro para comprar sapatos). Reduzir a mulher a um corpo é um crime. O senso comum faz as mulheres acreditarem que se elas não forem bonitas não terão nada na vida. As pessoas se esquecem que a beleza é passageira, ao passo que o conteúdo é duradouro. Pode parecer clichê, mas dar mais valor ao que você aparenta do que ao que você é retrocesso. É decepcionar todas as feministas que deram a cara pra bater porque queriam garantir seus direitos e os de todas as mulheres.
               


Gabriella Saruhashi

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Caso do Justiceiro


Engana-se quem pensa que vida de político é fácil. Tal trabalho homérico exige o melhor das qualidades impregnadas no homem. Se o ofício for na grandiosa Brasília então, o esforço é dobrado.

Que o diga o ilustre senador Mário Campos Borges. O barão dos Três Poderes, como gostava de se intitular, era a definição viva do desdobrar parlamentar. Em todos os seus 30 anos de vida pública no Distrito Federal, jamais faltou a uma sessão do plenário e até hoje tem o recorde brasileiro de leis aprovadas. “Recorde mundial, provavelmente”, sempre afirmava o senador de Mato Grosso. Cassações? Nenhuma, só as muitas que foram provocadas por ele. Nem sequer teve seu nome ligado a investigações nas CPIs. Era muito esperto e influente para ser descoberto.

Seu escritório no Senado conseguia retratar seu caminho. Sua mesa, feita com a madeira mais fina da Amazônia, era meticulosamente dividida em duas partes. Na direita, um telefone branco sujo, daqueles que só saudosistas ainda guardam com carinho, uma agenda de couro com telefones selecionados dos seus aliados, de banqueiros a fazendeiros, e orgulhosas fotos com grandes líderes internacionais. Já na esquerda, matérias da grande mídia de suas façanhas como “o último benfeitor da capital”, uma edição de “O Príncipe” com prefácio de Fernando Henrique Cardoso, uma caneta Mont Blanc preta e seu inseparável Ipad. Nas paredes azul-claras, um quadro pintado à óleo homenageando seu bisavô,  grande latifundiário e ex-senador no Império, além de um armário só com dossiês contra desafetos.

Obviamente, com tanto stress envolvido, uma válvula de escape é mais do que necessária para os parlamentares. Enquanto uns se entregavam aos cigarros e bebidas, outros preferiam a luxúria, o caso do Barão. Desde os tempos do primeiro mandato de Lula, Mário mantinha relações constantes com uma amante, no caso Rita Ribeiro, uma socialite carioca filha de um empresário no ramo esportivo. Nunca chamaram a atenção, nem mesmo da imprensa de esquerda, que tanto queria por um fim ao mais poderoso e popular representante da direita brasileira, e da família do parlamentar.

Um dia, após ásperas discussões com a bancada ambientalista sobre o Código Ambiental e uma quase briga generalizada, Mário exilou-se em sua sala para tentar acalmar os ânimos. Sem sucesso, ligou para a loura resolver a questão e ir ao Senado. Ao se encontrar com Rita no plenário, já deserto depois de encerrada a sessão, os impulsos adolescentes do mato-grossense cinquentão falaram mais alto e partiu pra cima da jovem como se fossem os tempos da faculdade de Direito da PUC. Rita, que tinha de bela inversamente proporcional ao seu bom senso, resolveu se entregar completamente aos caprichos do senador. Em movimentos sincronizados, os dois despiram-se com bastante ferocidade e se beijaram com o poder do clima seco dos candangos e cambalearam pelas mesas. No caminho, derrubaram o crucifixo de um representante evangélico e quebraram o tão estimado busto da Justiça de um populista. No ato final, os dois deitaram-se na mesa do presidente e se cobriram com a bandeira nacional.

Mário Campos Borges acabara de cometer o único grande pecado de um parlamentar. Um funcionário do prédio, ao reparar vários gemidos vindos do salão, se deparou com uma mina de ouro, o ponto fraco do Barão. Gravou evidência o suficiente para provocar um verdadeiro estrago na oposição. O tão aclamado paladino dos bons costumes conservadores ficou mais uma vez nu, mas agora diante dos eleitores após as matérias sensacionalistas sobre o flagrante. Seu poder e influência ruíram, assim como seu casamento. Ficou de joelhos enquanto assistia de camarote os fatos imolarem o símbolo com a corrupção de anos surgir das trevas. Teve que renunciar ao cargo.

As aparências sempre foram mais importantes que as realidades. O povo sempre prefere comprar a ideia de um corrupto com afeições de mártir do que um verdadeiramente honesto. É por isso, meus caros, que não há sinais de melhora no panorama político atual.

Aquele abraço

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