segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Noite


Final de tarde em São Paulo e o burburinho começa a reinar nos mais variados cantos da metrópole. Após um interminável e metódico dia, finalmente a noite chega para proclamar a ilusão de liberdade aos seres.

Entre as pessoas que mais aguardavam tal momento estava Maria Madalena. Filha de família de grande status social, aluna de uma das escolas mais tradicionais da cidade e baladeira quase profissional, a burguesinha considerava a madrugada como a única válvula de escape para mostrar nossa verdadeira humanidade. “Não existe pecado à noite, apenas instinto” sussurrou-me deliciosamente uma vez no meio da leitura do Novo Testamento na fria paróquia de aparência pseudoclássica anexa ao colégio. Gostava de enlouquecer os garotos à luz do dia para que, sob testemunha das estrelas, pudesse atacar suas vítimas sem o brutal julgamento da manhã.

A noite era seu verdadeiro habitat natural, sua própria razão de existir. Não precisava seguir convenções pré-estabelecidas pelas gerações conservadoras anteriores à sua existência. Não era necessário gastar sua preciosa e vital energia jovial com seu característico cinismo pelas questões do cotidiano, pelos estudos e pela realidade. Queria ter cada sensação possível que seu belo corpo - um metro e setenta centímetros, cabelo ardente, maçãs do rosto bem definidas e olhos verdes tão delicados, pudesse oferecer nas incessantes madrugadas paulistanas regadas a bebidas de nomes esdrúxulos –  “Não existe amor à noite, apenas open bar” era outro lema seu – e músicas monotemáticas. Evidentemente, eram de conteúdo vulgar para o deleite de Maria e suas Lolitas.

Para cada batida ensurdecedora nos titânicos alto-falantes, era um demônio libertado dos grilhões da sua sanidade mental. Para cada drink, adulterado ou não, um bem dado pisão de salto alto preto de quinze centímetros na decrépita jugular da sociedade. Assim, e só assim, sua verdadeira face despertava de seu exílio matutino e lançava seu olhar – e que olhar, meu caro leitor! ­– de fera chamando outros para adotarem a causa e rebelarem contra a artificialidade de suas vidas.  Uma autêntica revolução com hora marcada.

Infelizmente, perdi contato com Maria após a formatura do ensino médio. Alguns afirmam que a ainda estonteante ruiva, como fazem questão de ressaltar, se perdeu do caminho, enquanto outros declaram que ela realizou o sonho de abraçar a noite em definitivo. Só espero que ela esteja feliz, seja no mundo real ou no verdadeiro.

Aquele abraço

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3 comentários:

Anônimo disse...

critica bem articulada.. porem, me restou uma duvida.
pra voce, o que é ser livre?

marcia szajnbok disse...

diferenciar o mundo real do verdadeiro foi muito bom! fechou o texto com chave de ouro!!

Anônimo disse...

parecem que voces combinam. o mesmo estilo. a mesma revolta. o ser certinho. parecem adolescentes mauricinhos conservadores e paparicados. gostaria de ler voces daqui a 10 anos. e melhor gostaria que voces se lessem daqui a 10 anos. acho que eu sou voces 10 anos atras. nao percam tempo observando, julgando e decretando sentenças inuteis. aproveitem a vida.