Final de tarde em São Paulo e o burburinho começa a
reinar nos mais variados cantos da metrópole. Após um interminável e metódico
dia, finalmente a noite chega para proclamar a ilusão de liberdade aos seres.
Entre as pessoas que mais aguardavam tal momento estava Maria Madalena. Filha de família de grande status social, aluna de uma das
escolas mais tradicionais da cidade e baladeira quase profissional, a
burguesinha considerava a madrugada como a única válvula de escape para mostrar
nossa verdadeira humanidade. “Não existe pecado à noite, apenas instinto”
sussurrou-me deliciosamente uma vez no meio da leitura do Novo Testamento na
fria paróquia de aparência pseudoclássica anexa ao colégio. Gostava de
enlouquecer os garotos à luz do dia para que, sob testemunha das estrelas,
pudesse atacar suas vítimas sem o brutal julgamento da manhã.
A noite era seu verdadeiro habitat natural, sua própria
razão de existir. Não precisava seguir convenções pré-estabelecidas pelas
gerações conservadoras anteriores à sua existência. Não era necessário gastar
sua preciosa e vital energia jovial com seu característico cinismo pelas questões
do cotidiano, pelos estudos e pela realidade. Queria ter cada sensação possível
que seu belo corpo - um metro e setenta centímetros, cabelo ardente, maçãs do
rosto bem definidas e olhos verdes tão delicados, pudesse oferecer nas incessantes
madrugadas paulistanas regadas a bebidas de nomes esdrúxulos – “Não existe amor à noite, apenas open bar”
era outro lema seu – e músicas monotemáticas. Evidentemente, eram de conteúdo vulgar
para o deleite de Maria e suas Lolitas.
Para cada batida ensurdecedora nos titânicos
alto-falantes, era um demônio libertado dos grilhões da sua sanidade mental. Para
cada drink, adulterado ou não, um bem
dado pisão de salto alto preto de quinze centímetros na decrépita jugular da
sociedade. Assim, e só assim, sua verdadeira face despertava de seu exílio
matutino e lançava seu olhar – e que olhar, meu caro leitor! – de fera chamando
outros para adotarem a causa e rebelarem contra a artificialidade de suas
vidas. Uma autêntica revolução com hora
marcada.
Infelizmente, perdi contato com Maria após a formatura do
ensino médio. Alguns afirmam que a ainda estonteante ruiva, como fazem questão
de ressaltar, se perdeu do caminho, enquanto outros declaram que ela realizou o sonho de abraçar a noite em definitivo. Só espero que ela esteja feliz,
seja no mundo real ou no verdadeiro.
Aquele abraço
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3 comentários:
critica bem articulada.. porem, me restou uma duvida.
pra voce, o que é ser livre?
diferenciar o mundo real do verdadeiro foi muito bom! fechou o texto com chave de ouro!!
parecem que voces combinam. o mesmo estilo. a mesma revolta. o ser certinho. parecem adolescentes mauricinhos conservadores e paparicados. gostaria de ler voces daqui a 10 anos. e melhor gostaria que voces se lessem daqui a 10 anos. acho que eu sou voces 10 anos atras. nao percam tempo observando, julgando e decretando sentenças inuteis. aproveitem a vida.
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