São 9 horas da noite. O “oi, oi, oi” fala na televisão, e a
família, com dois filhos, se senta confortavelmente no sofá para assistir à
novela. Sabem os nomes de todos os personagens, todas as tramas, todos os bons
e todos os maus. O mundo da novela é maniqueísta, vale lembrar.
A uma hora de duração da novela faz a família se sentir bem.
Eles fazem parte daquele mundo. Se envolvem, se sentem parte de alguma coisa.
Mesmo que a novela já seja gravada e já tenha um final escrito, e que independe
da participação ou envolvimento da família. Quando acaba o programa, sentam-se
os quatro à mesa de jantar, que a empregada, cujo filho agora vai à faculdade
(que absurdo!), preparou.
O pai e a mãe começam a falar de como a corrupção no país dá
nos nervos dos dois. O pai não comenta, mas ao ir ao banco antes do serviço,
estacionou o carro numa vaga para idosos, e deu o dinheiro da cerveja para que
o manobrista “não visse”. Foi camarada, aquele manobrista. “Esses malditos
políticos que comandam o país, não percebem que estamos todos ficando cada vez
mais pobres por causa das roubalheiras deles?”. E criticam o SUS, a escola pública
e o transporte público, mas têm plano de saúde, os filhos vão de perua a uma
escola particular que custa os olhos da cara dos trabalhadores honestos.
Amanhã a gentil senhora irá dispensar a empregada, que vai à
festa de formatura do seu sobrinho, que se formou em uma universidade federal,
só porque é preto, olha o absurdo! Tudo bem, ela tirará o dia para ir à
manicure, já que não trabalha fora, para comentar os absurdos de Tufão no
último capítulo da novela.
As crianças vão para a cama. O mais velho não chegou a
comentar, mas, durante a novela, estava ocorrendo um debate político entre os
candidatos à prefeitura da cidade.
E o novo dia vai nascer. Os pais sabem da novela, mas não
sabem em quem votaram para vereador nas últimas eleições. E assim a classe
continua. Revoltada com o que não vê e com o que desconhece, sem saber de onde
vem, e sem mover uma palha para mudar qualquer coisa. Mas, se tudo der certo, a
Nina e o Jorginho vão acabar a novela juntos. Não é lindo ser da classe média?
Ulysses Faria
Twitter: @Ulysses_Faria
2 comentários:
brilhante !
Compartilhamos a indignação e a sensação de nonsense. Compartilharemos as esperanças? Muito bom texto.
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