Cinco horas
da manhã, hora ingrata. Com o rufar surdo de dois despertadores, mais uma vez
Zé Maria é lançado dos seus sonhos de momentos melhores em Ipanema para o
subúrbio carioca.
Maquinalmente,
ele beija a nuca de sua esposa nua, suada e terceira, e parte para o banho,
numa vã tentativa de conter o já infernal calor de Inhaúma. No banheiro, depara-se com a óbvia percepção
de que seus anos dourados desapareceram há tempos e que o espelho e a balança
agora fazem parte da sua lista de desafetos. Aos poucos, uma tristeza cresce
nas profundezas de Zé Maria, mas logo é abafada por um turbilhão de pensamentos
e preocupações do dia a dia. A manhã nem começara direito e já estava atrasado,
o que fazia da tristeza um elemento, além de inconveniente, totalmente
dispensável. Liga o chuveiro e, entre bocejos e grunhidos, entra na fria
cascata.
Ao sair do
banheiro, jura mais uma vez fidelidade à sua rotina. Veste metodicamente sua roupa social,
começando sempre pelas meias desbotadas e finalizando pela camisa surrada de
traços lilases. Para o café da manhã, apenas uma torrada com manteiga, um café
forte e a companhia dos filhos no canto inanimado da mesa são necessários. De
volta ao quarto, finalmente coloca o paletó cor de asfalto e se estrangula com
o nó preguiçoso de sua gravata azul Baía de Guanabara. Escova disciplinarmente
os dentes, reverencia o pôster do título americano de 1982 e só então sai da
sua humilde residência em direção ao metrô. Zé Maria é um servo fiel.
Assim como
todos os dias, caminha bêbado até a estação do bairro. Bêbado de sono e
atordoado pelo sol implacável em seu trono distante e indiferente. O passo,
cambaleante e amargo, segue à risca a rota de um GPS mental por ruas, ruelas e
cruzamentos igualmente conhecidos e explorados ao longo de anos até chegar ao
portão enferrujado do cemitério local, há apenas alguns metros do destino. Subitamente,
Zé Maria para e se vira para o interior da vizinhança mais silenciosa do Rio de
Janeiro, como se fosse chamado para dentro por alguma voz familiar. O suor,
outrora ligado ao pequeno exemplar de inferno na Zona Norte, agora arrepia seu último
resquício de alma e o aterroriza. Um novo turbilhão de pensamentos surge e
ganha terreno no território dominado pela rotina. Zé Maria tenta seguir seu
velho caminho, mas é incapaz de se mover. É preciso entrar.
Há muitos
anos não andava dentro do Cemitério de Inhaúma, e gostaria francamente de
permanecer assim. Entretanto, tudo parece tão assustadoramente familiar na
cabeça de Zé Maria que alguém de fora poderia achar que o pobre homem era um
assíduo frequentador do local. Seu
caminhar passa a ser leve, e a naturalidade que chega a uma lápide é
impressionante, apesar do tom consternado da razão. Não tem nada que chame a
atenção nesse ponto, apenas um nome quase apagado, uma data e um epitáfio
simples.
“José Maria Inocêncio Oliveira
(12/10/1964 - (24/01/1983)
Em homenagem ao jovem alegre que jaz
aqui em razão de uma escolha”
Instantaneamente,
o mundo desaba nos ombros de Zé Maria e todo seu pragmatismo escorre em forma
de dolorosas lágrimas. Uma vida inteira de encruzilhadas resumida em um macabro
monumento à sua infelicidade. Abatido, e com mais rugas que no começo da manhã,
coloca um buquê roubado de margaridas no pé do túmulo e volta-se para a saída
do cemitério.
De volta ao
portão, repara em quatro adolescentes conversando em frente de uma das várias
capelas do lugar. Ambos vivos e vibrantes, ao contrário do envelhecido Zé
Maria, que atravessa a via para ir de encontro com eles. Fica frente a frente
com os desconhecidos e, instantaneamente, sussurra alguns conselhos para o
bando e volta a seguir para o metrô. Esboça um sorriso, mas não por muito
tempo. Está atrasado e isso é o que importa novamente.
Aquele abraço!
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