quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Caso do Justiceiro


Engana-se quem pensa que vida de político é fácil. Tal trabalho homérico exige o melhor das qualidades impregnadas no homem. Se o ofício for na grandiosa Brasília então, o esforço é dobrado.

Que o diga o ilustre senador Mário Campos Borges. O barão dos Três Poderes, como gostava de se intitular, era a definição viva do desdobrar parlamentar. Em todos os seus 30 anos de vida pública no Distrito Federal, jamais faltou a uma sessão do plenário e até hoje tem o recorde brasileiro de leis aprovadas. “Recorde mundial, provavelmente”, sempre afirmava o senador de Mato Grosso. Cassações? Nenhuma, só as muitas que foram provocadas por ele. Nem sequer teve seu nome ligado a investigações nas CPIs. Era muito esperto e influente para ser descoberto.

Seu escritório no Senado conseguia retratar seu caminho. Sua mesa, feita com a madeira mais fina da Amazônia, era meticulosamente dividida em duas partes. Na direita, um telefone branco sujo, daqueles que só saudosistas ainda guardam com carinho, uma agenda de couro com telefones selecionados dos seus aliados, de banqueiros a fazendeiros, e orgulhosas fotos com grandes líderes internacionais. Já na esquerda, matérias da grande mídia de suas façanhas como “o último benfeitor da capital”, uma edição de “O Príncipe” com prefácio de Fernando Henrique Cardoso, uma caneta Mont Blanc preta e seu inseparável Ipad. Nas paredes azul-claras, um quadro pintado à óleo homenageando seu bisavô,  grande latifundiário e ex-senador no Império, além de um armário só com dossiês contra desafetos.

Obviamente, com tanto stress envolvido, uma válvula de escape é mais do que necessária para os parlamentares. Enquanto uns se entregavam aos cigarros e bebidas, outros preferiam a luxúria, o caso do Barão. Desde os tempos do primeiro mandato de Lula, Mário mantinha relações constantes com uma amante, no caso Rita Ribeiro, uma socialite carioca filha de um empresário no ramo esportivo. Nunca chamaram a atenção, nem mesmo da imprensa de esquerda, que tanto queria por um fim ao mais poderoso e popular representante da direita brasileira, e da família do parlamentar.

Um dia, após ásperas discussões com a bancada ambientalista sobre o Código Ambiental e uma quase briga generalizada, Mário exilou-se em sua sala para tentar acalmar os ânimos. Sem sucesso, ligou para a loura resolver a questão e ir ao Senado. Ao se encontrar com Rita no plenário, já deserto depois de encerrada a sessão, os impulsos adolescentes do mato-grossense cinquentão falaram mais alto e partiu pra cima da jovem como se fossem os tempos da faculdade de Direito da PUC. Rita, que tinha de bela inversamente proporcional ao seu bom senso, resolveu se entregar completamente aos caprichos do senador. Em movimentos sincronizados, os dois despiram-se com bastante ferocidade e se beijaram com o poder do clima seco dos candangos e cambalearam pelas mesas. No caminho, derrubaram o crucifixo de um representante evangélico e quebraram o tão estimado busto da Justiça de um populista. No ato final, os dois deitaram-se na mesa do presidente e se cobriram com a bandeira nacional.

Mário Campos Borges acabara de cometer o único grande pecado de um parlamentar. Um funcionário do prédio, ao reparar vários gemidos vindos do salão, se deparou com uma mina de ouro, o ponto fraco do Barão. Gravou evidência o suficiente para provocar um verdadeiro estrago na oposição. O tão aclamado paladino dos bons costumes conservadores ficou mais uma vez nu, mas agora diante dos eleitores após as matérias sensacionalistas sobre o flagrante. Seu poder e influência ruíram, assim como seu casamento. Ficou de joelhos enquanto assistia de camarote os fatos imolarem o símbolo com a corrupção de anos surgir das trevas. Teve que renunciar ao cargo.

As aparências sempre foram mais importantes que as realidades. O povo sempre prefere comprar a ideia de um corrupto com afeições de mártir do que um verdadeiramente honesto. É por isso, meus caros, que não há sinais de melhora no panorama político atual.

Aquele abraço

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2 comentários:

Anônimo disse...

ótimo texto, gostei da análise! realmente muito maduro. parabéns!

Anônimo disse...

Crucifixo de um evangélico ?????