quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Média da Classe


São 9 horas da noite. O “oi, oi, oi” fala na televisão, e a família, com dois filhos, se senta confortavelmente no sofá para assistir à novela. Sabem os nomes de todos os personagens, todas as tramas, todos os bons e todos os maus. O mundo da novela é maniqueísta, vale lembrar.

A uma hora de duração da novela faz a família se sentir bem. Eles fazem parte daquele mundo. Se envolvem, se sentem parte de alguma coisa. Mesmo que a novela já seja gravada e já tenha um final escrito, e que independe da participação ou envolvimento da família. Quando acaba o programa, sentam-se os quatro à mesa de jantar, que a empregada, cujo filho agora vai à faculdade (que absurdo!), preparou.

O pai e a mãe começam a falar de como a corrupção no país dá nos nervos dos dois. O pai não comenta, mas ao ir ao banco antes do serviço, estacionou o carro numa vaga para idosos, e deu o dinheiro da cerveja para que o manobrista “não visse”. Foi camarada, aquele manobrista. “Esses malditos políticos que comandam o país, não percebem que estamos todos ficando cada vez mais pobres por causa das roubalheiras deles?”. E criticam o SUS, a escola pública e o transporte público, mas têm plano de saúde, os filhos vão de perua a uma escola particular que custa os olhos da cara dos trabalhadores honestos.

Amanhã a gentil senhora irá dispensar a empregada, que vai à festa de formatura do seu sobrinho, que se formou em uma universidade federal, só porque é preto, olha o absurdo! Tudo bem, ela tirará o dia para ir à manicure, já que não trabalha fora, para comentar os absurdos de Tufão no último capítulo da novela.

As crianças vão para a cama. O mais velho não chegou a comentar, mas, durante a novela, estava ocorrendo um debate político entre os candidatos à prefeitura da cidade.

E o novo dia vai nascer. Os pais sabem da novela, mas não sabem em quem votaram para vereador nas últimas eleições. E assim a classe continua. Revoltada com o que não vê e com o que desconhece, sem saber de onde vem, e sem mover uma palha para mudar qualquer coisa. Mas, se tudo der certo, a Nina e o Jorginho vão acabar a novela juntos. Não é lindo ser da classe média?

Ulysses Faria
Twitter: @Ulysses_Faria

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Gorda ou Burra ?



"Não me incomodo com quem me chama de burra. Me incomoda é me chamarem de gorda!" 
Sabrina Sato.

                A mulher nem sempre teve espaço na sociedade, muito menos liberdade. Elas nasciam nas casas de seus pais e apenas se mudavam para a de um outro homem, supostamente aprovado pelo seu pai. Nunca era consultada. Política, trabalho, religião não eram coisas para mulheres, afinal os homens são muitos superiores. Ter um cromossomo y a mais sempre fez a diferença, desde os tempos em que nem se fazia ideia do que eram os cromossomos.
                As mulheres tiveram que lutar pelos seus direitos. Praticamente todas as religiões pregam a superioridade do homem sobre a mulher, e a submissão desta. No século XIX as mulheres frente aos ideais democraticos e  iluministas que pregavam a igualdade e a liberdade, vendo-se excluidas de todas as mudanças que ocorriam na modernidade deram inicio à primeira onda feminista. Dali em diante, o progresso em direção à igualdade cresceu cada vez mais. Mas há uma razão pela qual o movimento é ativo ate hoje. A total igualdade ainda não foi alcançada. As mulheres detêm apenas 1% da riqueza e ganham 10% das receitas mundiais, apesar de constituirem nada menos que 49% da população. Além disso, em média ganham 30% menos do que os homens, no mundo todo, mesmo quando têm o mesmo emprego. A descriminação ainda existe. O feminismo ainda é atual.
                No entanto, os progressos continuam: elegemos a primeira presidenta do Brasil. Uma mulher ocupar o cargo mais alto da republica é tão inédito que ate tivemos que acrescentar uma palavra ao nosso vocabulário. A participação ativa de mulheres em partidos políticos aumenta a cada ano e a cada eleição. As mulheres foram conseguindo aos poucos seus direitos de participação na sociedade: o direito ao voto, ao estudo, mas sobre tudo o foco sempre foi a igualdade.
                Não nos enganemos: o movimento feminista não prega a superioridade da mulher ou a opressão da mulher para com os homens. O movimento prega sim a igualdade e os direitos iguais. Igualdade é você ir ao cinema com o seu namorado e às vezes pagar as entradas, é ir almoçar e pagar a conta, deixar às vezes ele pagar, mas nunca aceitar a posição de que ele deve pagar porque ele tem um pênis e você, uma vagina. Igualdade é você beber uma cerveja e rachar a conta, porque você recebe o mesmo salário que um homem, é poder se candidatar a qualquer cargo público.
                Em contraste a isso, temos na televisão a supervalorização da mulher CORPO. Mulheres que se sujeitam a aparecer seminuas em rede nacional para atrair o público masculino para a frente da televisão. Não sou conservadora, acho que algumas mulheres têm o corpo admiravel e digno de elogios, além disso na sociedade capitalista cada um vende o que o outro está a fim de comprar. Mas, é revoltante uma pessoa inteligente se sujeitar a esse tipo de coisa.
                Sabrina Sato, desde que ficou famosa, sai em capas de revistas com os dizeres "Sou Inteligente" ou algo do tipo. Se esse fato é realmente verdade ela é a vergonha mundial de todas as mulheres. Uma mulher com um potencial culto e inteligente vender seu corpo e aparecer em rede nacional fazendo papel de idiota, apenas atuando para fomentar o estereotipo masculino é mediocre. Eu prefiro acreditar que é uma mulher destituída de faculdades intelectuais, a acreditar que ela se submete a esse tipo de coisa. Eu venderia meu rim antes de vender o meu carater.
                As mulheres devem lutar, e lutam, contra o estereotipo masculino. Mulher boa é mulher bonita, gostosa, burra, muda, passíva e fútil (aquela típica barbie que só abre a boca pra perguntar o que seu provedor quer jantar e para pedir dinheiro para comprar sapatos). Reduzir a mulher a um corpo é um crime. O senso comum faz as mulheres acreditarem que se elas não forem bonitas não terão nada na vida. As pessoas se esquecem que a beleza é passageira, ao passo que o conteúdo é duradouro. Pode parecer clichê, mas dar mais valor ao que você aparenta do que ao que você é retrocesso. É decepcionar todas as feministas que deram a cara pra bater porque queriam garantir seus direitos e os de todas as mulheres.
               


Gabriella Saruhashi

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Caso do Justiceiro


Engana-se quem pensa que vida de político é fácil. Tal trabalho homérico exige o melhor das qualidades impregnadas no homem. Se o ofício for na grandiosa Brasília então, o esforço é dobrado.

Que o diga o ilustre senador Mário Campos Borges. O barão dos Três Poderes, como gostava de se intitular, era a definição viva do desdobrar parlamentar. Em todos os seus 30 anos de vida pública no Distrito Federal, jamais faltou a uma sessão do plenário e até hoje tem o recorde brasileiro de leis aprovadas. “Recorde mundial, provavelmente”, sempre afirmava o senador de Mato Grosso. Cassações? Nenhuma, só as muitas que foram provocadas por ele. Nem sequer teve seu nome ligado a investigações nas CPIs. Era muito esperto e influente para ser descoberto.

Seu escritório no Senado conseguia retratar seu caminho. Sua mesa, feita com a madeira mais fina da Amazônia, era meticulosamente dividida em duas partes. Na direita, um telefone branco sujo, daqueles que só saudosistas ainda guardam com carinho, uma agenda de couro com telefones selecionados dos seus aliados, de banqueiros a fazendeiros, e orgulhosas fotos com grandes líderes internacionais. Já na esquerda, matérias da grande mídia de suas façanhas como “o último benfeitor da capital”, uma edição de “O Príncipe” com prefácio de Fernando Henrique Cardoso, uma caneta Mont Blanc preta e seu inseparável Ipad. Nas paredes azul-claras, um quadro pintado à óleo homenageando seu bisavô,  grande latifundiário e ex-senador no Império, além de um armário só com dossiês contra desafetos.

Obviamente, com tanto stress envolvido, uma válvula de escape é mais do que necessária para os parlamentares. Enquanto uns se entregavam aos cigarros e bebidas, outros preferiam a luxúria, o caso do Barão. Desde os tempos do primeiro mandato de Lula, Mário mantinha relações constantes com uma amante, no caso Rita Ribeiro, uma socialite carioca filha de um empresário no ramo esportivo. Nunca chamaram a atenção, nem mesmo da imprensa de esquerda, que tanto queria por um fim ao mais poderoso e popular representante da direita brasileira, e da família do parlamentar.

Um dia, após ásperas discussões com a bancada ambientalista sobre o Código Ambiental e uma quase briga generalizada, Mário exilou-se em sua sala para tentar acalmar os ânimos. Sem sucesso, ligou para a loura resolver a questão e ir ao Senado. Ao se encontrar com Rita no plenário, já deserto depois de encerrada a sessão, os impulsos adolescentes do mato-grossense cinquentão falaram mais alto e partiu pra cima da jovem como se fossem os tempos da faculdade de Direito da PUC. Rita, que tinha de bela inversamente proporcional ao seu bom senso, resolveu se entregar completamente aos caprichos do senador. Em movimentos sincronizados, os dois despiram-se com bastante ferocidade e se beijaram com o poder do clima seco dos candangos e cambalearam pelas mesas. No caminho, derrubaram o crucifixo de um representante evangélico e quebraram o tão estimado busto da Justiça de um populista. No ato final, os dois deitaram-se na mesa do presidente e se cobriram com a bandeira nacional.

Mário Campos Borges acabara de cometer o único grande pecado de um parlamentar. Um funcionário do prédio, ao reparar vários gemidos vindos do salão, se deparou com uma mina de ouro, o ponto fraco do Barão. Gravou evidência o suficiente para provocar um verdadeiro estrago na oposição. O tão aclamado paladino dos bons costumes conservadores ficou mais uma vez nu, mas agora diante dos eleitores após as matérias sensacionalistas sobre o flagrante. Seu poder e influência ruíram, assim como seu casamento. Ficou de joelhos enquanto assistia de camarote os fatos imolarem o símbolo com a corrupção de anos surgir das trevas. Teve que renunciar ao cargo.

As aparências sempre foram mais importantes que as realidades. O povo sempre prefere comprar a ideia de um corrupto com afeições de mártir do que um verdadeiramente honesto. É por isso, meus caros, que não há sinais de melhora no panorama político atual.

Aquele abraço

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Fardo de Existir


O Fardo de Existir

Diz a sabedoria popular que , ao nascermos, a única certeza que temos perante a enigmática via que se coloca a nossa frente é que ela finda na morte. Incita a sua (in)sanidade sobre a veracidade deste caminho, atormentando sua mente com a incerteza que se estaria ele realmente vivo.

Nenhum deus lhe era suficientemente verossímil e nenhuma teoria o contentava, ao contrário, isso somente aumentava seus questionamentos existenciais. Aos poucos, nele se desenvolveu uma visão contrária ao ufanismo e moralidade da sociedade, quando olhava para o céu, conseguia apenas identificar o cinza proveniente das fábricas e ao seu redor havia apenas abutres, abutres que não hesitariam voltar-se contra a sua pessoa pela menor migalha de pão, talvez todos fossem abutres, talvez ele próprio fosse um também. E assim quebrou-se o mundo utópico  e ,inegavelmente, vivo de sua infância.

A cada novo dia , digo, a cada nova morte, ele levantava maquinalmente e quando via já estava tomando café, piscava outra vez e estava na rua a busca de trabalho, para poder sustentar a existência a qual fora condenado, de repente, a pulsação se acelera, seria um superaquecimento de sua matriz de funcionamento, mas instintivamente deu um passo atrás, já tinha criado laços com sua sina e o ônibus seguiu seu caminho subindo a rua.

A Literatura, essa sim era uma válvula de escape funcional. Por meio dela, percebia que não era o único desajustado a pensar daquela forma, havia outros, haveria de haver outros ,também condenados, que ele poderia cruzar na sua rotina aprisionante .Surgiu um brilho sublime em seus olhos.

Luís Felipe Gozalo

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Russomanno e a Idade Média


Em 18 anos de vida, acompanhei a algumas campanhas para prefeito de São Paulo, cidade em que nasci e em que sempre vivi. E consigo dizer com certeza que esta é, de longe, a pior de todas as corridas eleitorais de todos os tempos.

Todos os candidatos são terríveis. Tudo bem que eu acredito que, no modelo em que vivemos, todos os candidatos são, em sua essência, ruins, mas esse ano a coisa foi longe demais. José Serra, com seus mandatos incompletos, máfias por todo o estado e seus impressionantes 46%, até o momento, de rejeição. Fernando Haddad, depois de fazer a desgraça que fez com o ensino superior nacional, e deixando para Mercadante a árdua tarefa de comprometer o ensino médio, se mostra o menos pior candidato destas eleições. Gabriel Chalita e os interesses fisiológicos do PMDB, herança dos tempos de PSD, na República Populista dos anos 1950.

Mas o pior de todos, é, sem dúvida, Celso Russomanno. O candidato do PRB, Partido Republicano Brasileiro, carrega consigo uma infinidade de interesses corruptos e bandidos da também bandida Igreja Universal do Reino de Deus. Russomanno iniciou sua carreira política em 1990, quando sua mulher faleceu após uma mal sucedida cirurgia estética da qual ela não precisava. A partir deste fato, começou a se auto proclamar o defensor dos direitos do consumidor, ganhando infinitos espaços em televisões, principalmente na Record, do Bispo Macedo, e se aproximando de figuras como a de Paulo Maluf.

Celso Russomanno, conforme aponta reportagem da Folha de São Paulo, versão online, conta com uma sede informal de campanha, que fica em Santo Amaro. Mais precisamente, que fica na sede da IURD. O repórter que acompanhou ao culto relata na reportagem que pastores pedem a cada fiel “100 votos para o Russomanno”. É verdade que a Folha tem interesses na eleição de José Serra, mas as acusações sobre a total e absoluta quebra da laicidade do Estado são válidas.

Vivemos hoje uma experiência de como seriam as eleições se elas existissem no século V. O candidato da IURD, da grande massa de protestantes, cuja fé é manipulada por pessoas nefastas e ruins como Edir Macedo, Valdemiro Santiago e tantos outros pastores, tem mais de 35% das intenções de voto. Seu projeto de governo? Uma igreja em cada esquina da capital paulista.

Por isso, digo a todos vocês. Dia 7 de outubro, ou São Paulo elege Fernando Haddad, e se coloca no final do século XX, ou elege Celso Russomanno, e aguenta 4 anos de “Rota na rua”, “Jesus Cristo é o Senhor”, de volta ao século V. Independente do resultado, sairemos perdendo. O Brasil merece uma democracia mais digna.




Ulysses Faria